Crônicas Escolares

Educando Por Princípios

Ensinando para a Vida 31/03/2011

Filed under: Sem categoria — Ana Beatriz Rinaldi @ 10:28

 

Não consigo!! Não vou tentar outra vez!

Essa era a frase preferida de Mariana.

A professora já havia dito muitas vezes que tinha certeza de que Mariana iria conseguir aprender, mas ela não acreditava em si mesma.

Mariana havia crescido em um lar amoroso, mas sua dificuldade estava em acreditar que seria capaz de fazer tudo que seu irmão mais velho fazia. Para ela, ele sim era brilhante em tudo que fazia! Sempre acertava nas lições, ia bem nas aulas de piano e natação.

Ela agora enfrentava o desafio de aprender a ler e escrever e nada no mundo fazia com que acreditasse que ela era capaz.

A insegurança, a comparação que ela mesma fazia de si mesma com o irmão, faziam com que se sentisse incapaz de fazer as mesmas coisas que o irmão mais velho fazia.

Sua mãe foi chamada na escola e a situação foi exposta com amor. A escola e a família, estavam agora unidas no mesmo propósito: Mariana precisava aprender a ler e escrever.

Um dia, a mãe de Mariana estava na escola para ajudar outros pais a organizarem uma festa e passou pela janela dos professores que estavam no seu momento de oração. Foi emocionante para ela ouvir os professores clamarem pela vida da Mariana! Onde mais ela poderia encontrar uma escola onde os professores amavam sua filha e se preocupavam com o futuro dela a ponto de gastarem tempo buscando estratégias para ajudar sua filha. Maria, mãe de Mariana, naquele momento, teve a certeza de que o desafio seria vencido. Se sentiu privilegiada por ter sua vida em uma escola onde ela não era mais uma matrícula, mas sim uma criança criada a imagem e semelhança de Deus e portanto, digna de toda atenção.

O ano passou e a formatura chegou. Mariana era plenamente capaz de ler e escrever! No ano seguinte, foi feito um concurso de redação envolvendo várias escolas e Mariana foi a escolhida entre muitas outras.

O papel da escola cristã não é apenas preocupar-se com exercícios, mas sim se envolver com a família, firmando uma aliança onde cada um tem seu papel definido e o cumpre. Mariana foi amada, respeitada e a certeza passada pelos pais e professores de que ela conseguiria aprender, deu a ela a segurança que ela precisava para aprender. Um aluno deve ser tratado de forma individual, pois cada um tem suas próprias características e tempo de maturidade que precisam ser compreendidas e respeitadas.

 

Crônica da Paz 15/03/2011

Filed under: Sem categoria — Ana Beatriz Rinaldi @ 20:40

Crônica da Paz

Naquela manhã ninguém poderia prever que os acontecimentos que se seguiriam mudaria para sempre a vida de Regis.

Já tinha sido muito duro deixar o Paraguai correndo, trazido pelo seu tio que alegava estar agindo na intenção de melhorar a vida da família Almeida.

O pai de Regis vivia alcoolizado. Já nem sabia se era dia ou noite, nem mais percebia. O trabalho na lavoura estava devagar e não conseguia nenhum trabalho melhor. Para este pobre homem, a solução foi beber.

A mãe de Regis já não suportava a ausência da família que morava no Brasil e a solidão que lhe era imposta por esse estilo de vida, morar na fazenda.

Ela havia escrito para o irmão pedindo socorro, não suportando mais viver longe dos familiares e sem o apoio do marido.

Quando Tio Josemar chegou, parecia ter chegado a salvação de todos. Ele comprou passagem para a irmã e os três sobrinho e os trouxe para o interior de São Paulo.

O pai ficou e sem entender nada do que estava acontecendo. Ficou com sua cara amarrada, sempre zangada, pronto para ser violento caso fosse perturbado. A solidão agora seria sua única companhia.

A mãe de Regis não suportou  a culpa de deixar o marido e acabou entrando em um mundo imaginário como forma de amenizar sua perda.  Pela manhã perguntava pelo marido e saia pela rua procurando onde ele estava. A situação ficou tão incontrolável que foi preciso internar ela em um hospital psiquiátrico. A família temia que ela desaparecesse de vez podendo acabar como  moradora de rua.

Como se já não fosse  bastante  o vazio no coração de  Regis, um dia ele pegou seu tio convidando sua irmã mais velha para dormir no quarto com ele. Desconfiado, contou para a  vizinha que acabou por denunciar o tio ao Conselho Tutelar. O tio perdeu a guarda e os sobrinhos foram mandados a uma instituição.

Quando Regis chegou na Casa, seus olhos eram tristes, parecendo buscar em algum lugar distante a solução um caminho que o levasse a atender seu mundo. A vazio se materializava em uma dor de barriga. Todos os exames possíveis foram feitos e não se achava nada no menino. Mas era fácil imaginar que a dor era o vazio trazido pela solidão, pelo desespero, pela angústia de saber que não pertencia a ninguém, não era amado por ninguém. Regis imaginava que não era especial e nem  capaz de se fazer amado. Seu mundo ficou tão silencioso que ele mal falava com as pessoas da Casa. As palavras haviam perdido seu significado e ele preferia não usa-las com receio de que elas trouxessem mais dor e indiferença.

Depois de alguns meses, Regis foi convidado a participar de um programa de desenvolvimento da linguagem oral e escrita oferecido na  Instituição onde morava. Foi escolhido entre muitos, justamente porque tinha muito dificuldade de se comunicar, preferia sempre o silêncio.

A princípio, ele não participava de nada. Não respondia, não lia, embora soubesse ler, não interagia. Como parte do programa, era preciso anotar em seu caderno as novas palavras, definições e conclusões do livro  de literatura clássica que estavam estudando. Logo a professora observou que seu caderno era o mais caprichado, limpo e organizado. Aí estava a chance de fazer Regis entender seu valor como criação de Deus, feito a Sua imagem e semelhança.

Os elogios na frente dos colegas, a leitura das suas respostas pela professora diante da classe e os constantes pedidos da professora para que ele lesse o que escrevia, acabaram por fazer com que Regis acreditasse que talvez ele tivesse realmente algum valor.

As palavras para ele começaram a ter outro significado. As palavras se tornaram instrumento do que ele sentia, do que ele queria dizer ao mundo e nunca tivera coragem. Através delas, encontrou um forma de contato com o mundo que deixou de ser silencioso.

A paz que tanto faltara em toda sua vida, podia ser encontrada na leitura de livros que falavam de dores semelhantes a dele e da amizade da professora e dos colegas que gostavam de ouvir suas respostas.

A mente de Regis deixou de ser vazia. Agora palavras enchiam sua mente com ideias novas, com novos conhecimentos e entendimentos sobre o funcionamento do mundo.

Finalmente ele começou a entender

 

Nós professores, precisamos crer que ensinar o verdadeiro significado das palavras pode ser um caminho de trazer liberdade a vida dos nossos alunos.

Se nos colocarmos nas mãos de Deus, Ele nos dará a sabedoria que precisamos para ensinar cada aluno da forma que ele precisa ser ensinado.

 

 

 

Crônica da Esperança 10/03/2011

Filed under: Sem categoria — Ana Beatriz Rinaldi @ 15:44
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Janaína estava enfrentando um ano difícil na escola, era o ano de aprender a ler e ela estava dando o máximo de si mesma. Ela sabia que era muito importante aprender a ler.

Já fazia dois anos que morava na Instituição.

Durante esse tempo, nunca deixou de acreditar que um dia chegaria uma família que a acolheria  e a amaria como os pais devem amar seus filhos.

Ela tinha certeza de que esse dia tinha chegado quando a chamaram para conhecer Giulio e Amanda. Eles eram tão simpáticos e gostavam tanto de conversar! Ela alimentou durante três meses a esperança de que finalmente  teria sua própria casa, seu quarto, sua família! Tudo parecia correr bem. Finalmente ela fora alfabetizada. Ela sempre achou que ninguém ia querer adotar uma menina que não soubesse ler e escrever. Por isso mesmo, se empenhou muito para ser boa aluna. A professora era boa e parecia gostar muito dela. Durante as aulas, quando as crianças estavam em silêncio fazendo a lição, a professora pedia a ela que cantasse. Sim, ela gostava de cantar e tinha uma linda voz. Essa voz começava baixinho, como um riacho que de longe só se ouve um chiado mas quando chegamos perto, quase não podemos conversar junto a ele. Assim era o canto de Janaína. Começava doce mas ia crescendo e de repente a professora precisava lembra-la que cantasse mais baixo.

Após três meses de encontros, passeios e muitas perguntas, o casal desapareceu da vida de Janaína. A mãe social explicou que eles haviam desistido de adotá-la. Insistiu em dizer que o problema não era ela mas sim o casal que percebeu não estar preparado para assumir essa responsabilidade. Foi uma grande dor para o coração de Janaína. Afinal, ela havia se esforçado tanto para ser obediente e boa aluna. Não podia imaginar o que dera errado. Ela não daria trabalho. Sabia ler e escrever e fazer quase tudo sozinha. A lição de casa,  tomar banho, comer, cuidar da sua roupa, guardar os brinquedos e quase tudo que via outras crianças mais velhas fazerem.

A querida professora começou a ficar preocupada. Janaína dizia não se lembrar mais de como se escreviam as palavras. Na hora da lição, pedia a professora para escrever na lousa a resposta, não se lembrava das palavras. As palavras pareciam vazias de significado, de propósito.

Preocupada com essa situação, a Diretora da escola perguntou a uma das professoras se poderia gastar um tempo diariamente com Janaína, em uma aula particular, para sondar o que estava acontecendo. Depois de algumas aulas, a professora chegou a conclusão que tudo que Janaína precisava era uma atenção especial. Um tempo que fosse só dela, sem ter que dividir a atenção com os outros colegas. Os últimos dois anos nada havia sido só dela, nem o tempo das pessoas que aprendera a amar. Ela se sentia amada, mas queria que existisse alguém para quem ela fosse realmente especial.

Meses se passaram e Janaína estava novamente lendo e escrevendo muito bem. A professora havia trabalhado com ela a história da criança que queria muito uma bicicleta. A história ensinava que as vezes, quando pedimos muito uma coisa para Deus, Ele apenas diz ESPERE. Nem sempre Ele nos responde SIM quando pedimos, mas precisamos aprender a esperar.

Passados 6 meses, uma família italiana veio visitar a Instituição. Janaína estava sentada cantando. Ao ouvir aquela voz cheia de sentimento, o casal logo se interessou em conhecer Janaína. Em poucos meses, Janaína partia para morar na Itália com o casal. Agora seu desafio seria aprender o italiano na escola, mas ela sabia que seria capaz, pois nada seria impedimento agora que ela tinha uma mãe um pai só para ela!

Encontramos no nosso caminho como educadores, crianças que tem tanta dificuldade no aprendizado da leitura e escrita! Acreditamos  que essas crianças precisam de uma psicopedagoga para superarem seus desafios. Algumas vezes, precisam mesmo. Mas na grande maioria dos casos, elas precisam mesmo é de atenção especial e individualizada. Vamos deixar o coração livre para sentir a dor do outro e assim discernir a real necessidade de cada criança.