Crônicas Escolares

Educando Por Princípios

Crônica da Paz 15/03/2011

Filed under: Sem categoria — Ana Beatriz Rinaldi @ 20:40

Crônica da Paz

Naquela manhã ninguém poderia prever que os acontecimentos que se seguiriam mudaria para sempre a vida de Regis.

Já tinha sido muito duro deixar o Paraguai correndo, trazido pelo seu tio que alegava estar agindo na intenção de melhorar a vida da família Almeida.

O pai de Regis vivia alcoolizado. Já nem sabia se era dia ou noite, nem mais percebia. O trabalho na lavoura estava devagar e não conseguia nenhum trabalho melhor. Para este pobre homem, a solução foi beber.

A mãe de Regis já não suportava a ausência da família que morava no Brasil e a solidão que lhe era imposta por esse estilo de vida, morar na fazenda.

Ela havia escrito para o irmão pedindo socorro, não suportando mais viver longe dos familiares e sem o apoio do marido.

Quando Tio Josemar chegou, parecia ter chegado a salvação de todos. Ele comprou passagem para a irmã e os três sobrinho e os trouxe para o interior de São Paulo.

O pai ficou e sem entender nada do que estava acontecendo. Ficou com sua cara amarrada, sempre zangada, pronto para ser violento caso fosse perturbado. A solidão agora seria sua única companhia.

A mãe de Regis não suportou  a culpa de deixar o marido e acabou entrando em um mundo imaginário como forma de amenizar sua perda.  Pela manhã perguntava pelo marido e saia pela rua procurando onde ele estava. A situação ficou tão incontrolável que foi preciso internar ela em um hospital psiquiátrico. A família temia que ela desaparecesse de vez podendo acabar como  moradora de rua.

Como se já não fosse  bastante  o vazio no coração de  Regis, um dia ele pegou seu tio convidando sua irmã mais velha para dormir no quarto com ele. Desconfiado, contou para a  vizinha que acabou por denunciar o tio ao Conselho Tutelar. O tio perdeu a guarda e os sobrinhos foram mandados a uma instituição.

Quando Regis chegou na Casa, seus olhos eram tristes, parecendo buscar em algum lugar distante a solução um caminho que o levasse a atender seu mundo. A vazio se materializava em uma dor de barriga. Todos os exames possíveis foram feitos e não se achava nada no menino. Mas era fácil imaginar que a dor era o vazio trazido pela solidão, pelo desespero, pela angústia de saber que não pertencia a ninguém, não era amado por ninguém. Regis imaginava que não era especial e nem  capaz de se fazer amado. Seu mundo ficou tão silencioso que ele mal falava com as pessoas da Casa. As palavras haviam perdido seu significado e ele preferia não usa-las com receio de que elas trouxessem mais dor e indiferença.

Depois de alguns meses, Regis foi convidado a participar de um programa de desenvolvimento da linguagem oral e escrita oferecido na  Instituição onde morava. Foi escolhido entre muitos, justamente porque tinha muito dificuldade de se comunicar, preferia sempre o silêncio.

A princípio, ele não participava de nada. Não respondia, não lia, embora soubesse ler, não interagia. Como parte do programa, era preciso anotar em seu caderno as novas palavras, definições e conclusões do livro  de literatura clássica que estavam estudando. Logo a professora observou que seu caderno era o mais caprichado, limpo e organizado. Aí estava a chance de fazer Regis entender seu valor como criação de Deus, feito a Sua imagem e semelhança.

Os elogios na frente dos colegas, a leitura das suas respostas pela professora diante da classe e os constantes pedidos da professora para que ele lesse o que escrevia, acabaram por fazer com que Regis acreditasse que talvez ele tivesse realmente algum valor.

As palavras para ele começaram a ter outro significado. As palavras se tornaram instrumento do que ele sentia, do que ele queria dizer ao mundo e nunca tivera coragem. Através delas, encontrou um forma de contato com o mundo que deixou de ser silencioso.

A paz que tanto faltara em toda sua vida, podia ser encontrada na leitura de livros que falavam de dores semelhantes a dele e da amizade da professora e dos colegas que gostavam de ouvir suas respostas.

A mente de Regis deixou de ser vazia. Agora palavras enchiam sua mente com ideias novas, com novos conhecimentos e entendimentos sobre o funcionamento do mundo.

Finalmente ele começou a entender

 

Nós professores, precisamos crer que ensinar o verdadeiro significado das palavras pode ser um caminho de trazer liberdade a vida dos nossos alunos.

Se nos colocarmos nas mãos de Deus, Ele nos dará a sabedoria que precisamos para ensinar cada aluno da forma que ele precisa ser ensinado.

 

 

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One Response to “Crônica da Paz”

  1. Digitei seu nome e achei!!!
    Nossa! Que lindo e inspirador seu blog. Agora posso entrar todos os dias.
    Parabéns.
    Bjs
    Cidoca


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